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duvidem do meu amor, das minhas ideias, do meu afeto, do meu apreço, do meu infinito, do meu limite, do meu estar, da minha imagem, duvidem até das minhas mentiras! mas não se esqueçam de duvidar
de si mesmos.

umlugarparafugir:

Eu sempre penso que este é o momento. Sinto. Pressinto. Talvez até almeje para que o mal estar evapore. Eu repito: vamos, começa logo, eu não quero aviso prévio, cospe essa dor no tapete da sala, derrama esse azedo grudado no céu da boca e tudo ficará bem depois. Até a próxima. Parece reza profunda. Decorei as normas, mas é sempre lento. 

Semana passada conheci um homem incrível. Eu estava em uma área só para fumantes, mas nunca toquei em um cigarro. Ele vasculhou os bolsos da sua calça e perguntou se eu tinha um. Eu disse que sim. Ele sentou. Eu desmenti. Quer conversar? Quero. Você parece em pânico. É assim todo dia. Ele suspirou e perguntou se eu queria ouvir histórias sobre a sua vida. Eu disse que tinha assistido um filme onde um cara só contava histórias fantasiosas e o filho dele nunca soube se ele era real. Mas essa história é real, eu tenho as marcas. E foi mostrando, contando. O homem já tinha ido para o exército, bordel, acampamento de velhinhas, boates na favela, festas de luxo. Já se arriscou em uma montanha e descobriu ervas do prazer. Apaixonou-se, traiu, casou, mentiu, teve filhos, perdeu o pai, ganhou um cão. Querubim, assobio de calopsita, física quântica, prosa e nado sincronizado. Paz. De repente a minha vida era carregada por aquela formiga que cruzava nosso banco.

Eu não vivi nada, meu bem, meu pulmão virgem de cigarro e as minhas veias limpas desse mel. As marcas são de injeções carregadas de buscopam e soro em pleno desespero de uma catástrofe mental. Sou suja de uma invenção. Eu realmente sinto que estou caindo e me preparo para o pior. Aviso aos amigos e escrevo cartas, escuto relatos de depressão, comparo, investigo e por último faço o único ato radical: viro algumas doses de cerveja barata. Mas não apaga o medo. Até a tontura de uma bebedeira me parece com infarto. E a doença volta. Placebo. Eu sou aquela criancinha que vai apenas a um brinquedo do parque, aquele onde ela se sente segura com o cinto, o clima, as pessoas. Você é o menino corajoso andando em montanhas russas. Eu nunca. Você já, claro, você tem jeito de que anda de ponta cabeça, que dorme de barriga para baixo, que deixa o chinelo ao contrário. Eu sei, eu sei, ainda não é nada, eu achei que a maior loucura era desafiar o meu medo, mas fiquei perturbada com a possibilidade. Creio que algumas pessoas não nasceram com esse espírito livre, eu sigo como se tivesse um coração de chagas e um pulmão de um canceriano. Eu sigo com as trinta e sete rugas ressaltadas e as varizes equilibradas no centro da minha vontade de correr. Com ossos fracos, eu sinto que meu corpo não suporta uma aventura mais forte. Estar aqui do seu lado já me causou uma convulsão emocional. Estou em alta velocidade e não sei parar. Não, eu não posso fumar, vai que comigo dê errado. Relaxo, claro que eu relaxo, é um comprimido verdezinho com passiflora e maracujá. Logo fico bem. 

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